segunda-feira, 22 de julho de 2013

Hoje não se fala português. Linguareja-se!

LÍNGUA & LINGUAGEM
Hoje não se fala português...linguareja-se!
Por Helena Sacadura Cabral em 04/06/2013 na edição 749
Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos
"afro-americanos", com vista a acabar com as raças por via gramatical,
isto tem sido um fartote pegado! As criadas dos anos 70 passaram a
"empregadas domésticas" e preparam-se agora para receber a menção de
"auxiliares de apoio doméstico".


De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos" que passaram
todos a "auxiliares da acção educativa" e agora são "assistentes
operacionais".
Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por
"delegados de informação médica".
E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em
"técnicos de vendas".
O aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez";
Os gangs étnicos são "grupos de jovens"
Os operários fizeram-se de repente "colaboradores";
As fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas
da estranja são "centros de decisão nacionais".
O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à
"iliteracia" galopante. Desapareceram dos comboios as 1a e 2a classes,
para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas
por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se
preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
Pensar e falar
A gata, rainha do pimba, cantava chorosa: "Sou mãe solteira..." ; agora,
se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente
melodia: "Tenho uma família monoparental..." - eis o novo verso da
cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.
Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças
irrequietas e "terroristas"; diz-se modernamente que têm um
"comportamento disfuncional hiperactivo" Do mesmo modo, e para
felicidade dos "encarregados de educação" , os brilhantes programas
escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando
muito, "crianças de desenvolvimento instável".
Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada
desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O
termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar
inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para
as regras gramaticais...)
As p.... passaram a ser "senhoras de alterne".
Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça
desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas
fracturantes" e outros barbarismos da linguagem. E assim linguajamos o
Português, vagueando perdidos entre a "correcção política" e o
novo-riquismo linguístico.
Estamos "tramados" com este "novo português"; não admira que o pessoal
tenha cada vez mais esgotamentos e stress. Já não se diz o que se pensa,
tem de se pensar o que se diz de forma "politicamente correcta".
Helena Sacadura Cabral é jornalista e escritora portuguesa