sábado, 26 de setembro de 2015

Há três maneiras universais de impedir que uma conversa "saia dos carris"

Nas conversas, pedimos esclarecimentos recorrendo a formas
linguísticas que são semelhantes em todas as línguas, conclui estudo.

Uma equipa internacional de cientistas analisou a estrutura de quase
50 horas de conversas espontâneas numa série de línguas (incluindo
gestuais) de todos os cantos do mundo. E descobriu que, em todas elas,
os interlocutores utilizam as mesmas estratégias linguísticas de base
para corrigir, em tempo real, os problemas de comunicação que vão
surgindo. Os seus resultados foram publicados na revista online de
acesso livre PLOS ONE.

O trabalho foi liderado por Mark Dingemanse, do Instituto Max Planck
de Psicolinguística em Nijmegen (Holanda), e Nick Enfield, da
Universidade de Sydney (Austrália).

Os mesmos cientistas já tinham mostrado, em 2013, que uma interjeição
foneticamente semelhante em muitas línguas - e cuja versão em
português é "hã?" - era universalmente utilizada nas conversas humanas
sempre que alguém precisava que lhe repetissem alguma informação.

Esse trabalho valeu há dias aos seus autores um IgNobel - um daqueles
célebres prémios anuais que recompensam resultados que "primeiro fazem
rir e depois fazem pensar" - na categoria de Literatura.

No dia seguinte, antes de termos tido a oportunidade de dar os
parabéns aos autores pelo galardão, recebemos um email de Mark
Dingemanse a anunciar-nos "duas grandes notícias". Uma era o prémio
(que já tínhamos noticiado) e a outra a publicação de um novo "grande
estudo" no seguimento do trabalho anterior, escrevia o cientista, "que
revela ainda outros princípios universais inesperados das conversas
humanas (...), dando-nos uma visão mais global de como nos conseguimos
perceber uns aos outros contra ventos e marés".

O que é que eles fizeram desta vez? Descobriram que, para além do
"hã?", o sistema linguístico de base que todos usamos para impedir que
as nossas conversas se transformem num "jogo do telefone estragado"
possui duas outras componentes, mais sofisticadas - e, ao que tudo
indica, igualmente universais.

Para isso, a equipa analisou quase 50 horas de registos em vídeo de
conversas espontâneas, num contexto de vida quotidiana. Os registos
foram feitos em línguas pertencentes a oito famílias linguísticas,
incluindo algumas muito faladas - russo, mandarim, inglês - e outras
muito menos conhecidas, tais como o chapala, uma língua indígena do
Equador; a linguagem gestual argentina; ou o siwu, falado no Gana. No
total, foram estudadas horas de conversas em 12 línguas vindas de
cinco continentes.

"Três formas principais de iniciar a reparação [de erros nas
conversas] são recorrentes em todas as línguas da nossa amostra",
escrevem os autores na PLOS ONE. A primeira, que designam "pedido
aberto", dando como exemplo o "hã?", requer essencialmente a repetição
integral de algo que já foi dito pelo interlocutor. A segunda, o
"pedido restrito", apenas requer o esclarecimento de um "componente
específico": no meio de uma conversa, alguém interrompe o locutor com
um "quem?" (algo que com certeza já muitas vezes aconteceu a todos
nós). Quanto à terceira "ferramenta" linguística, trata-se de
"propostas restritas", que consistem em repetirmos algo que já foi
dito para obter confirmação ("ela teve um filho?", exemplificam os
autores). Resposta típica neste último caso: "Yeah", escrevem.

"Em todas as línguas [analisadas]", explicam ainda, "estes três tipos
básicos representam a esmagadora maioria das formas de interrupção
[para esclarecimento] e utilizam recursos linguísticos semelhantes:
interjeições, interrogações, entoações e repetições."

Nas conversas, essas interrupções são bastante frequentes: no conjunto
das línguas estudadas, surgem em média de 90 em 90 segundos. Isso
mostra, concluem, que as interrupções com vista a obter
esclarecimentos "constituem uma característica fundamental e frequente
das conversas em todo o lado".

Os cientistas fazem ainda notar que estas estratégias são usadas de
forma "altruísta" pelos interlocutores. "As pessoas preferem escolher
o tipo de intervenção mais específico possível, um princípio que (...)
minimiza o tempo de interrupção da conversa."

É um facto, como mostra o exemplo acima, que, se usássemos
indiscriminadamente o "hã?", a resposta exigiria mais tempo e esforço
por parte do nosso interlocutor do que quando fazemos uma pergunta
específica ou quando somos nós próprios a repetir apenas a informação
que precisamos de confirmar. Para os autores do estudo, isso "revela o
carácter fundamentalmente cooperativo da comunicação humana".